domingo, 10 de janeiro de 2010

Cores

Era pra ser só mais um dia como tantos outros já vividos, mas Deus decidiu num ato divino deixar de se levar tão a sério e sorrir.
O mundo trocara de cor num repente e as pessoas, enganas por sua própria veste desesperaram-se. O Sol veio verde, a lua vermelha. Mães trocaram de filhos, homes trocaram seus automóveis. Os jovens se viram atônitos diante do novo e os idosos, ah, os idosos se acomodaram mais uma vez. Góticos plantaram flores, anorexicas engoliram seu regogir, famintos comeram seus cães.
E Violet, que nunca tivera sido nem feia nem bela, nunca se comparara a poemas nem poetas, transpareceu.

Achamos que pensamos porque acreditamos demais em nossas próprias mentiras.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Rosa

Nunca lhe parecera existir alguém mais fiel e dedicada - a amava, ah como amava. Os cabelos lisos alcançavam a cintura, e dentre seus fios negros já se podia vislumbrar o surgir de rajados brancos, como as luzes que entram pela fresta das janelas no amanhecer. Os olhos estupidamente azuis, patéticos como sua expressão sempre serena e límpida. Na face, as marcas do tempo davam-lhe um ar imponente mas delicado. Haviam bolsas, como se o pranto agora tão raro, tivesse deixado a dor que caía dos olhos incrustada, para que o viver nunca fosse esquecido. As linhas que cruzavam sua pele marcavam os caminhos por ele percorridos, e por ninguém mais.

Ele nunca chorara e nem conseguia compreender como ela, em momentos tão simples o fazia. Nuca se olhara num espelho, nunca tocara outro senão ela. Eram sós, mas se sentia completo por isso. Água, comida, um lugar, alguém... o que mais lhe faltava?
Não sabia o porquê nem quando, assim como ela, mas em meio a mais ninguém se surpreendeu apaixonado. Contemplava a beleza do ser único, sua rosa.
Era na face dela, em seus seios já cansados, na dor do andar, no som de uma voz quase inaudível que conheceu a velhice, que via seu próprio tempo passar. O que mais lhe faltava?

Matou-a, com a compadecência dos apaixonados, a licença dos amantes. Viu seus olhos perderem o brilho, a pele se tornar pálida interrogação entre seus dedos, uma última lágrima correr por sua face ainda quente, e o suspiro final.
Enterrou-a cuidadosamente no jardim, onde tos os dias regava seus cabelos como se esperando algo mais. E ela, em seu repouso e com toda condescência que só dos mortos pode vir, provava com seu não reagir que havia mostrado tudo.
Arrancou-lhe a primeira lágrima, e de presente o sentido de continuar - o que faltava era, paradoxalmente, um vazio.

Entre crisântemos e sálvias, um canteiro de rosas se fêz.
Rosa, talvez fosse esse seu nome.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

désirs

Quando paro pra pensar
sobre tudo que vivencio
chego à triste conclusão que
não vivencio tudo o que penso.
Aí bate um vazio
de quem deixou mais a desejar
do que desejou mais que alguém que deixou.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

.

sem pensar no que escrevo...
é assim que anda esse blog. e eu.

sábado, 26 de dezembro de 2009

UNIVERSO


Trata-se de um lugarzinho agradável e lúdico, sensivelmente menor do que o lugarzinho em que vivemos. Aliás, o Universo trata-se precisamente do lugar onde seu dia-a-dia manifesta suas criações e acontecimentos diários. É o palco diminuto onde o acaso encena um convincente teatro de fantoches.

Esse é o Universo. Um lugarzinho medíocre.

UNIVERSO INVERSO

Imagine um lugarzinho agradável e lúdico, com um palco diminuto onde o acaso encena um convincente teatro de fantoches. Sim, esse lugarzinho é muito parecido com o Universo, a não ser pela sutil diferença de ter sido redemoinhado, virado de pernas para o ar, rededemoinhado novamente.

Assim é o Universo Inverso. Um lugarzinho caoticamente medíocre.

REVERSO UNIVERSO INVERSO

Ao contrário do que muitos poderiam supor, esse lugar em nada se parece com o Universo - a despeito da lógica linguística. E não, também não se parece com o Universo Inverso - apesar da mesma lógica.

O Reverso Universo Inverso se parece com um lugar nada comum, absolutamente atípico. Ele não é agradável, não é lúdico, e nem é palco para nenhum teatrinho estúpido que o acaso, por acaso, ouse encenar. Ele é sim um lugar genuinamente original, autêntico, onde as coisas acontecem porque querem, e não porque são encenadas.

"Dane-se o mundo que não me chamo Raimundo", esse é o lema do Reverso Universo Inverso. E toda vez que esse lema é dito lá, sempre é seguido de um energético "Viva!" como resposta. E caso você esteja se perguntando, sim, os habitantes de "lá" são umas pessoas pra "lá" de energéticas.

Lá existem as mesmas dores, os mesmos medos, as mesmas picuinhas que torram a paciência do Universo. A diferença, entretanto, é que dores, medos e picuinhas ficam um tanto quanto sem sentido após terem sido redemoinhadas, viradas de pernas pro ar, redemoinhadas novamente e então metodicamente organizadas por um desorganizado grupo de crianças de seis anos.

Assim é lá, ou melhor, assim é o Reverso Universo Inverso. Um lugarzinho corajosamente não medíocre.

sábado, 11 de abril de 2009

A raça das pombas

Quando paro pra pensar na infância que tive por parte de mãe, não me vem à memória aquele primo aventureiro ou histórias contadas por minha avó. É que pra falar a verdade eu era a prima da cidade e das terras longínquas, e até hoje não sei se minha avó já foi criança – ou se já nasceu fazendo rosquinhas e pães de queijo.
Uma vez me disseram que ela morava em uma casa grande e azul, era filha de fazendeiros, mas ela nunca disse uma só palavra. Quem sabe um dia eu pergunte.Meu avô sim, eu tenho certeza. Afinal, que adulto que você conhece te deixaria brincar de piquenique em cima de seu caminhão enquanto dirigia até a cidade vizinha só pra te comprar bubbaloos?
Ele sim, não morreu. Foi pro céu criança.


(10 anos, mas essas datas "família" sempre me lembram dele... saudades)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Soul's Evening

Sabe, lá. Quando você vai em busca de algo e, depois de ter encontrado percebe que só sobrou você, assim, para compartilhar a sensação de ter encontrado algo.

E como só sobrou você, você então descobre um monte de coisas sobre si. E, assim, é lá que algumas coisas fazem sentido.

Descobre que você só viajou pra lá porque o pôr-do-sol de lá era, assim, especial.

Descobre que o pôr-do-sol de lá era assim, especial, porque lá havia alguém assim, especial.

Descobre que você só gosta de morangos porque eles são tremendamente vermelhos, e não tanto pelo sabor.

Descobre que gosta de ser beijada. Realmente você descobre um monte de coisas.

Descobre que além de ser beijada, você gosta que ele te puxe pela cintura para faze-lo. E então você percebe que gosta tremendamente disso.

Descobre que gosta de ter alguém perto de si. Alguém que você possa abraçar e dizer o quanto gosta de abraços. Alguém que precise de você de uma forma que te deixe mais livre do que se estivesse sozinha.

Descobre que andar sozinha num sábado à noite não é uma boa idéia, apesar de ser tremendamente interessante. Mas que, ainda assim, não é uma boa idéia andar sozinha num sábado à noite.

Descobre que a noite ainda é noite sem lua no céu, mas uma noite sem lua no céu não é uma noite “daquelas”. Definitivamente, você descobre uma pá de coisas.

Descobre que você gosta de ir ao cinema sozinha porque eles te fazem se sentir pequena. E que, por esse gostar, você até topa andar sozinha num sábado à noite, mesmo que isso não seja uma boa idéia.

Descobre que ficar sozinha às vezes faz um bem danado, mas que esse bem danado deixa as pessoas, assim, um tanto quanto solitárias.

Descobre que você vai morrer mais cedo ou mais tarde, e que portanto, deve ser uma boa idéia ser um pouco mais feliz e espontânea, assim, às vezes, só pra variar.

E por fim, você descobre que após tentar descobrir tantas coisas, o pôr do sol já se foi e agora é noite. Que você tem mais o que fazer do que ficar descobrindo coisas no entardecer da alma, no meio do nada e olhando o céu, brincando com as incertezas e alegrias que suas descobertas trouxeram consigo.

:)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Simbiose

No início havia Existência, que se manifestava sem medo das ameaças de Nada.

Afinal, Nada tinha sido derrotada antes, e seu poder esmorecera perante Existência. O mérito dessa vitória, então, se expressou sobre a forma de Início.

Dizem que Início foi o manifesto poético mais breve de Existência, pois mal acabara de ser, já expressava outro significado: a Continuidade.

Daqueles que viram esse fenômeno, existe uma opinião comum: Continuidade tinha um formato circular e em constante movimento e era, sem sombra de dúvidas, sem graça. Diferente de Início, que resplandecia e brilhava, e possuía uma infinidade de dimensões.

De todas as entidades que Existência presenciara, era sem dúvida uma das mais fortes, era o “quê” que existência precisava para perdurar. Dessa forma, guarnecida pelo poder de Continuidade, Existência sublimou suas emoções e nasceu de novo, demoradamente, repartida em milhares de partes.

Pois bem. Mas lembremos que Nada é para sempre.

Ela também havia renascido com Existência, escondida sob a per missa da dualidade: Sim ou Não, Leve ou Pesado, Presente ou Ausente. Afinal de contas, as diferentes qualidades de Existência só eram possíveis com a dose de Nada que havia em cada uma delas. Nada definia as partes de Existência, delimitando-as.

Entenda-se dessa forma: a condição entre ambas era, agora, inexoravelmente uníssona.

É curioso observar que, certa vez, numa das muitas facetas de como as coisas já foram, Nada acusou Existência de despotismo. “Seu império é tirânico!”, ela dizia. “Você ao dá aos outros outra forma de ser. É por isso que eles recorrem a mim: me vêem como uma possibilidade de fuga de você.” Sabemos agora que Nada, de fato, invejava Existência, pois nessa nova forma de ser (nessa unicidade, na dualidade de tudo) Nada se fazia tão tirânica quanto Existência já o havia sido.

É claro que essa nova condição imposta ao seu renascimento não agradava Existência. Ora, Nada era uma manifestação antagônica à sua presença: como poderiam, então, coexistir tão próximos? Sim, a dualidade das coisas vinha dando certo – mas até quando? Existência se amedrontava diante dessa incerteza. Temia que sua tão amada Continuidade (que fazia com que suas partes perdurassem) estivesse também impregnada com a dualidade, o que implicaria num novo aspecto poético: o Cessar. E Existência previa que o Cessar seria a prerrogativa perfeita para que Nada invertesse a dualidade, tornando a Existência apenas a ausência de Nada, e não o contrário (pois sabemos que, na realidade, Nada era a ausência de Existência).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

La Valse des Monstres

Fazia tempo que não conseguia dormir à noite, e dessa vez teria de ser diferente - ou não aguentaria de cansaço. O clima da cidade não ajudava nem um pouco, com seus escaldantes quarenta graus, e ela tentava encontrar na TV algo que a motivasse a sair da frente dela.

O massacre da serra elétrica foi o estopim.
_ Gente burra! - ria ela ao irmão a cada efeito de sangue, ossos e cérebros voando.

Cansou-se logo na primeira parte, e dormiu.

Quero dizer... Primeiro posicionou seu colchão num canto escondido da sala, atrás do sofá, fechando a janela acima da sua cabeça (sempre cismara com rostos de homens surgindo na janela). Foi no quarto, vestiu seu moletom abóbora que sua mãe tanto odeia, uma camisa bem rente ao corpo, pegou seu jacaré de pelúcia e, aí então, se deitou... e dormiu.

...

Já era quase manhã. Acordou com um barulho de passos. Abriu os olhos e fitou a escada que descia da área. Tinha medo da escada, afinal, ela mesmo invadira a casa diversas vezes por ali, ou pela janela de seu quarto, que por esse motivo sempre dormia trancada. Viu um vulto.

Parecia alto, esguio, só se enxergava a camisa de mangas, e cor clara.

O coração disparou, os olhos tornaram a se fechar. Como que instintivamente, a respiração tornou-se ofegante, as mãos enrijeceram todos seus músculos e ela enfiou-a discreta, mas tremulamente, debaixo do travesseiro. Não pensou em mais nada, por apenas 5 segundos.

Foi quando pôde sentir o olhar de tão assustadora sombra projetando-se em sua nuca, e um arrepio veio correr-lhe toda a espinha. Ouviu todos os passos, sabia onde ele andava. Ele foi à cozinha e ela torceu para que não abrisse nenhuma gaveta atrás de facas. Não abriu. Percebeu que ele entrou em seu quarto. Ouviu-o abrindo a janela, derrubando seu violão, subindo em sua cama - plano de fuga, pensou logo.

E então o silêncio.
Um silêncio mais cruel que o cessar do Natal.

Ouviu os pássaros acordando e fazendo farra. Dois grilos. As cigarras. Não ouvia a motinha da guarita da rua. Ouviu um assovio repetitivo, tão novo a seus ouvidos que imaginou serem os comparsas avisando: "Sái já daí!", ou "Estamos entrando!"... ou pior: "Passa a faca logo!".

Só então percebeu seu pescoço exposto, e percebeu que dormir na sala foi uma péssima idéia, já que ficou no caminho de todas as "tralhas" que um ladrão pode querer. Saiu da posição de bruços e deitou-se sobre o braço esquerdo, protegendo o coração. Cobriu-se com o lençol, enrolando-o no pescoço, e abraçou o Wally com força.

Ficou pensando no celular que estava em cima da mesa e decidiu que deveria fazer algo...

Então ficou de olhos abertos certo tempo para que a vista se acostumasse com a meia luz do amanhecer. Ele ainda estava no quarto dela, silencioso. Talvez até já tivesse ido embora. Ela se levantou - dessa vez não tremia. Tinha seu estilete em uma das mãos, pegou o celular e colocou no bolso como quem usurpa algo. Eram exatamente cinco e quinze da manhã.

Agora já podia ver tudo. O plano era conferir se havia alguém em seu quarto e, caso houvesse, correr para a porta do banheiro que ficava em frente, trancá-la e ligar para a polícia - ou quem sabe gritar seu vizinho policial. Sua família estaria a salvo, afinal, só dormem de portas trancadas. E o estilete? Por garantia - ou ilusão mesmo.

Caminhou até o quarto, empurrou a porta sorrateiramente. Podia ouvir sua respiração cansada, podia ouvir todas as vozes que pararam sua costumeira infinda conversa em sua mente, para cantar "bycicle race" do Queen não se sabe o porquê, mas era assustador. Respirou fundo, espreitou, e finalmente... o alívio.

Não tão alta e agora já sem camisa, reconheceu sobre os meios tons, seu pai.

Os pássaros riam em coro, e os grilos, e as cigarras. Até o Wally pareceu lhe mandar um olhar de deboche, mas levou um cascudo por isso - afinal, talvez o filme tivesse lhe assustado um pouco.

Então ela se deitou, de bruços, braços abertos. E voltou a dormir, enquanto Yann tocava, só para ela, La valse des monstres.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Conspicuamente Inconspícuo

(e sua contraparte inconspicuamente conspícua)


E talvez foi assim que ele começou a gostar dela. Porque dela vinha uma luz e um calor que ele desgostava em outras pessoas - brilho e calor esse que ele, mesmo com toda sua "lógica e senso de responsabilidade", jamais podeira ter - mas que nela tinha um quê de belo.
Aliás, era mais que belo, era cativante. Infelizmente ele optou pela velha e segura "armadura" de pseudo pessimismo, antagônica ao calor que dela irradiava, e que acabou por apagar a conspícua chama de amor que nascia entre ambos.

Ela não gostava dele no começo. Simplesmente porque ele era bobo apaixonado e bonzinho demais. Mas, ao longo do tempo, ela percebeu que era ele que perdoava todas as suas fraquezas infantis e que, portanto, ele deveria ser o melhor garoto do mundo. Apaixonou-se então egocêntricamente, fazendo dele a transição irrefreável de garoto para homem, e clamou para si todo amor que ele fosse capaz de dar. Porém, dele restou apenas um clone dela, um desinteresse óbvio pelo amor que ele havia construído pelos dois: o mundo deles era inconspícuo.

Restaram, ao final dessa estória, apenas corações partidos e trincados, remendados às pressas, lacerados pela incerteza pessimista e acidamente sarcástica que corria pela veia dos recém desiludidos.

E cada um tenta ser feliz à própria maneira. E assim o mundo imerge numa realidade inconspícua, sem perspectivas, sem sonhos, sem solução , sem nada.

Essa é a hora em que faço novos planos.